Treino/entrevista com João Colaço, o herói do Monte Branco

Nuno Fabião:  João, depois de mais de 26 horas a correr pelos montes suíços, qual foi a sensação de cortar a meta com a bandeira de Portugal, sabendo que eras o primeiro luso a passar pelo quilómetro 168?

João Colaço: Não é fácil descrever por palavras todas as emoções e sensações que me inundaram naqueles momentos. Foi como reduzir todas as horas de treino solitário, todos os sacrifícios a um só instante. Em particular sendo aquela a prova de Ultra Trail mais emblemática do mundo, o ambiente é arrebatador. O facto de ser o primeiro português, ampliou um pouco a situação. Simplesmente inesquecível.

NF: Muita gente que corre deve estar a pensar no tipo de treinos que fazes para conseguires estar tantas horas a correr e conseguires manter a intensidade em níveis tão elevados?

JC: Fisicamente é necessário estar em boa forma para se conseguir enfrentar o desafio que é uma prova de 100 milhas. São necessárias muitas horas por semana para estarmos preparados. Em fase de carga, o treino é diário, e pode chegar a duas horas por dia, durante a semana. Por vezes faço bi-diários, mas o treino do final do dia é duríssimo para mim, que estou habituado a levantar-me de madrugada para treinar antes do trabalho. Ao fim-de-semana, temos o treino longo que pode chegar aos 60 km. Nas semanas mais duras a quilometragem pode ultrapassar os 140-150 kms facilmente. Depois vamos fazendo algumas provas e ganhando experiência. Entre treinos e provas, estou quase a chegar aos 4000 kms este ano. Os rítmos de prova não interessa que sejam muito elevados, pois o fundamental é a regularidade. Temos alturas em que há que caminhar, não se faz tudo a correr. No entanto, o ” músculo ” mais importante neste desporto e o mais dificil de treinar é a mente. Isso, só o acumular de sensações e vivências permite que estejamos prontos para as grandes distâncias.

NF:  Nesta prova de Mont Blanc, das mais duras do mundo, há uma coisa que me deixa curioso. A prova decorre, pelo menos, uma vez durante a noite. São pelo menos 8 a 10 horas privados de luz, muitas vezes ao frio e em altitude. Como conseguem correr nessas condições tão adversas sem se perderem, com níveis de visibilidade tão reduzida, praticamente só a ouvirem a vossa respiração?

JC: Curiosamente, em termos de detecção do percurso correcto, a noite costuma ser bem mais simples que o dia, uma vez que as marcações são reflectoras e com a luz dos frontais são visíveis a grandes distâncias. Mas é um período que o ritmo tende a baixar um pouco. E depois há a altura fantástica do amanhecer, quando o clima está favorável. Neste Ultra Trail du Mont Blanc estava no Val d´Aosta, na parte italiana da prova, quando o dia começou a nascer e foi fabuloso. Apesar de tentar manter a concentração, conseguimos abtrair-nos e ficar rendidos a estes momentos. A prova começou às 16h30 de sexta-feira e eu terminei no sábado por volta das 19h, ainda de dia. Os colegas que tiveram que enfrentar a 2ª noite ainda em prova merecem-me todo o respeito. Quem termina no limite do tempo da prova( 46h) passa duas noites completas.

NF: Quando chegaste a Portugal, tiveste alguma abordagem que achasses diferente, para além dos parabéns da família e amigos? Foste abordado por desconhecidos? Será que o trail running já aparece no mapa e os seus campeões já começam a ser reconhecidos?

JC: Para além da família e dos amigos que me esperaram no aeroporto, sem eu estar à espera, o que foi uma surpresa fantástica, tive muitas felicitações de apoio de várias pessoas que me conhecem no campo profissional, mas que desconheciam esta minha paixão. Para isso tudo contribuiu o interesse da imprensa leiriense, à qual agradeço, ao contrário do que se passou na minha terra ( Marinha Grande ) onde o jornal local ignorou o facto. Em termos de visibilidade geral, não sou eu um dos símbolos da modalidade. A nível nacional temos o Carlos Sá e o Armando Teixeira que, esses sim, já não têm nada a provar, e que já fizeram muito pela divulgação do Ultra Trail nacional e pertencem à elite mundial.

NF: Tu pertences a um grupo de amigos invejável, que depois de tantos anos juntos, agora preparam as 4ª feiras das Brisas do Lis, em Leiria. Um encontro para caminhadas e corridas que já une quase 3000 pessoas semanalmente na Praça Rodrigues Lobo. Um encontro que já foi alvo de reportagens por 2 canais principais de televisão. Recentemente estiveram 2 elementos do vosso grupo na Praça da Alegria a divulgar esta maravilhosa iniciativa. Poderia perguntar qual o segredo, mas nestas coisas não há muitos segredos. Por isso a pergunta é outra: o que é ser um Nelito? O que é ser um Pé D´atleta? Isto é, pertencer ao NEL ( Nucleo de Espeleologia de Leiria ) que tem a secção de trail running denominada Pé D´atleta.

JC: A questão é mesmo sermos um grupo de amigos e não uma equipa. Tenho tido vivências fantásticas com este grupo de amigos mais recentes.  O NEL é um clube com uma tradição antiga, mas tanto os mais velhos como os mais novos têm oportunidade de participar activamente. São pessoas com valores sólidos e elevados. Depois há a ligação com a natureza que me fascina. Embora eu só esteja no trail, temos ” mestres ” em escalada, espeleologia, parapente, etc… Em particular, e concretizando, tivemos um mês de Agosto memorável, com a Corrida Rara do António Silva, que tive o privilégio de acompanhar nos últimos kms na chegada a Santiago de Compostela num ambiente cheio de emoções. E com a expedição ao Mont Blanc que foi espectacular. Resumindo, o NEL foi uma das coisas boas que me aconteceu nos últimos anos!

Eu e o João num treino que começou de noite e acabou ao amanhecer!

2013-10-10 07.44.09 (1)

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